Reflexão e Ação – Patrimônio Cultural de Joinville

A edificação do Moinho Joinville, alvo de preocupação da mídia e cidadãos joinvilenses, não se faz em vão. A inquietação é se faz do risco de ser mantida sob o silêncio das fotografias, de uma paisagem ainda presente, igualmente como de outros patrimônios edificados, de valor cultural para a cidade, de uma história de mais de 162 anos. História protagonizada por teutos e teuto-brasileiros, luso-brasileiros, afro-brasileiros e ‘caboclos’, a afirmar a multiculturalidade étnica local.

Iniciada a construção do Moinho em 1910 e concluída em 1913, sob a administração dos lusos Abdon Batista e Domingos Rodrigues da Nova, bem como do teuto Oscar Schneider, surge a partir do advento da energia elétrica, a alavancar o desenvolvimento industrial. Em 1909 a empresa de energia é fato, graças à iniciativa dos lusos Domingos Rodrigues da Nova e Olímpio Nóbrega de Oliveira e mais tarde com Alexandre Schlemm e Procópio Gomes de Oliveira, a fazer parte do corpo administrativo. Vale lembrar que a empresa de energia em 1928 passou a ser intitulada de Empresul (Empresa Brasileira de Energia), subsequentemente encampada pelo Estado, compondo a autarquia das Centrais Elétricas de Santa Cataria (CELESC). No citado momento histórico ocorreu também a abertura da Estrada Dona Francisca (1903), fazendo a ligação ao Planalto Norte e também, da Estrada de Ferro (1905), abrindo assim novos caminhos para o desenvolvimento de Joinville.

O Moinho, localizado estrategicamente junto ao Rio Cachoeira, outrora limpo e local de chegada e partida de pessoas e mercadorias pelo Cais Conde D’Eu e Porto Bucarein, fez parte da forte economia da época, baseada na erva-mate, cal e madeira. As marcas destas riquezas econômicas na cultura foram apresentadas através nas edificações e paisagens no entorno do Moinho assim como em outras áreas da cidade. Citam-se as companhias de exportação de erva-mate como a de Abdon Batista junto ao Moinho, assim como a de Hans Jordan e Gerken mais próximas do Mercado Municipal. As agências marítimas de Carlos Hoepcke, de André Becker Júnior e também a de Oscar e Babitonga que transportava passageiros de Joinville a São Francisco do Sul. Havia depósitos de madeira e serrarias como a da família Trinks, marcenarias como da família Cubas, etc.. Restam desta paisagem, o Moinho Joinville (ainda íntegro) e os resquícios em ruínas, da Agência Oscar e Babitonga, ambos na Rua Cais Conde D’Eu.

Esta área do Cais Conde D’Eu teve relação direta com a antiga Rua do Mercado, atual Avenida Coronel Procópio Gomes, onde os ervateiros Procópio Gomes tinha seu escritório e moradia e Hans Jordan também sua residência, ainda presentes na paisagem. Morava também Leopoldo Schmidt, fabricante da cal, cujo estabelecimento situava-se no início da Rua do Mercado. Hoje, onde está a Havan, havia o engenho de erva-mate de Bernardo Stamm e ao lado oficina para fabricação de barricas para o mate.

Esta rica história econômica está refletida nas edificações da Avenida Getúlio Vargas, a exemplo do ervateiro Horácio Nóbrega de Oliveira, esquina com a Rua Alexandre Schlemm bem como nas Ruas do Príncipe e Dr. João Colin.

Traz-se à reflexão as citadas edificações, patrimônios culturais da cidade, a exemplificar: a de Hans Jordan passou por anos de abandono a agora felizmente em processo de restauro; de Procópio Gomes por anos alugada, agora sob o risco, por estar desocupada; de Horácio da Oliveira em processo de descaracterização.

Citam-se fatos lastimáveis ocorridos na Rua Dr. João Colin: esquina com Rua Quinze de Novembro do antigo Magazine Ritzmann, outrora loja da família Trinks, totalmente descaracterizada com a ocupação da Farmácia Raia; a edificação ao lado, residência da família Trinks, ignorada como bem a ser preservado; na esquina em frente a residência do ervateiro Trinks datada de 1917, depois Grande Hotel, Stein, Principado Games e por outros usos ocupada, tendo passado por descaracterizações, sendo, entretanto um patrimônio tombado pela municipalidade.

Ainda na Dr. João Colin a lamentável demolição da Lumière em 2009 e em frente desta, o antigo Açougue Central Fernandes, ignorado enquanto patrimônio cultural a preservar, estando inserido na paisagem. Na próxima esquina, com a Rua Max Colin, o prédio da antiga Ford, há 17 anos em estado de abandono, tendo recebido recentemente ação indevida de grafite, patrimônio igualmente tombado pela municipalidade em 2005.

Referendando algumas das perdas importantes neste século: o Casarão Timm (2004) então situado à Rua Nove de Março e, da que foi a Companhia Mercantil Industrial Exportadora à Rua Abdon Batista, depois Novo Hotel Joinville.

Outro exemplo de descaracterização recente, o conjunto de três edificações à Rua Blumenau próxima à Rua Quinze de Novembro, mesmo tendo sido tombadas pela municipalidade. Uma delas foi totalmente modificada e, para comprometer mais ainda este conjunto, foram comprometidas com a barreira visual imposta pela construção de um grande edifício na esquina da Rua Mário Lobo com a Rua Blumenau.

Cita-se também o inadmissível abandono, na Rua Quinze de Novembro, da antiga residência do doutor Konrad Sehrwald a qual passou à função de Pensão König e depois Hotel do Imigrante, em frente ao tombamento feito pelo IPHAN em 1962, do Cemitério do Imigrante. Esta edificação passou por processo inicial de recuperação em 2009, devido a queda parcial do telhado. O que deveria ser restaurado, acabou sendo um patrimônio lançado à própria sorte.

A Rua das Palmeiras, tida como cartão postal da cidade, com duas edificações parcialmente incendiadas (2010 e 2011) tiveram as aberturas lacradas com alvenaria na recente reinauguração deste espaço.

Retrocedendo à década de 1990 as lastimáveis perdas como da edificação à Rua Itajaí esquina com Jerônimo Coelho para ser erigido o Laboratório Municipal; a tipografia Boehm à Rua Visconde de Taunay. Na década de 1980 perdemos a Casa Louvre na Rua do Príncipe, a Casa Paroquial junto à Catedral, o Restaurante Tannenhof, a Confeitaria Dietrich.

São estes alguns exemplos que clamam, dentre outros mais, por ação de proteção à história local, cujos exemplares das arquiteturas nas paisagens fazem com que esta memória se torne presente evitando o esvaziamento do passado e a produção de lacunas no futuro. Fazendo uso das palavras de Carlos de Laet: Honrar o passado é preparar o futuro. Há que se redefinir o ideário da cultura patrimonial local, além de ser enaltecida e rememorada.

Volta-se ao início do foco – o Moinho Joinville. Qual será o destino desta edificação dentre as citadas? A Bunge Alimentos S.A. fará a manutenção? Os órgãos públicos tomarão atitude em proteção ao bem? E quanto aos outros casos sequer analisados ainda para serem protegidos como tombamento ou inventário? Qual o destino desta história joinvilense?

A cidade não pode ser privada de seus bens culturais edificados, constituídos a mais de um século e meio, devendo ser impedido que patrimônios representativos sejam apagados, descaracterizados e abandonados, comprometendo e aniquilando a memória e identidade coletiva do lugar. São legados incontestáveis, frutos de uma época que produziu grande riqueza econômica e cultural, cujos patrimônios estão vulneráveis, totalmente dependentes do julgamento humano.

Rosana Barreto Martins
Arquiteta e Urbanista, Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura de Cidade/UFSC

Dezembro 2013

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